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Postado em: 28/11/2011 06:00:00
Fonte: Elaine Valdez - Rural Centro
Editoria: Geral

Mulheres no Campo: engenheira agrônoma Cynthia Cominesi

Mulheres no Campo: engenheira agrônoma Cynthia Cominesi

A Rural Centro, de olho nas tendências de mercado, vem acompanhando os avanços e conquistas das mulheres brasileiras, principalmente no campo. São ministras, senadoras, deputadas, presidentes de entidades, cargos importantes que vem sendo bem desempenhados por elas. Aliás, nossa nação está sendo governada por uma!

Desta forma, nada mais justo do que nos aproximarmos destas grandes mulheres que estão fazendo a diferença no setor rural. Esta semana convidamos a Engenheira Agrônoma e Coordenadora do Projeto Mulheres do Campo, Cynthia Moleta Cominesi, que desenvolve projetos sociais voltados à causa das mulheres. Com muita sensibilidade, ela trabalha em prol do desenvolvimento sustentável. Confira:

Rural Centro - Quando descobriu que tinha este espírito de liderança? Nos conte um pouco sobre sua trajetória.
Cynthia Cominesi -
Na verdade não descobri, ninguém me disse isso e eu também nunca me vi como uma líder. Simplesmente as coisas foram acontecendo. Quando passei no curso de Agronomia em 1995 a turma era formada por 36 homens e nove mulheres, das quais somente cinco se formaram, sendo eu uma delas. Assim desde aquele tempo, sempre convivi muito com homens, na minha equipe de trabalhos acadêmicos eram eu e mais cinco meninos e, assim, eu sempre tinha que saber mais do que eles pra mostrar que era capaz de enfrentar os trabalhos de campo inerentes a área de agronomia e mostrar que estava fazendo Agronomia por vocação e não por “rebeldia”, como eles costumavam dizer. Além disso, era sempre muito mais organizada do que eles e sempre acabava fazendo os trabalhos e também apresentando-os, o que me ajudou muito na minha comunicação oral e no meu desempenho durante todo o curso.

RC – O fato de ter morado fora do Brasil fortaleceu sua independência?
CC
– Sim, ter feito um estágio internacional através da minha universidade (UEPG) e a Universidade de Ohio nos EUA, em 1999, me ajudou a me virar sozinha, superar desafios, ir atrás dos meus sonhos. Além disso, depois fiz mestrado interdisciplinar em Ciências Sociais (2002-2005), o que me tirou da área de Exatas e me trouxe para a área de Humanas. Este foi um período muito importante pra mim, pois tive contato com as questões sociais, culturais inclusive sobre questões ligadas ao gênero. Aí quando terminei o mestrado fui direto morar em Sorriso/MT. Chegando lá comecei a trabalhar como professora de Gestão Ambiental e Gestão do Agronegócio no Curso de Administração da Faculdade de Sorriso.

Logo em seguida fui convidada para Coordenar o Curso de Tecnologias em Agronegócios que estava para iniciar na faculdade em 2006. Fiquei trabalhando com alunos até 2008 e, mais uma vez, este período foi um grande aprendizado, pois tive que aprender a me relacionar com vários atores sociais ao mesmo tempo (alunos, professores, diretores da faculdade), cada um com seus próprios interesses e diferentes visões sobre o ensino superior.  Hoje, vejo que foi necessário um grande espírito de liderança para fazer com que um curso extremamente desconhecido virasse um sucesso.

Em 2009 entrei para o Clube Amigos da Terra como Consultora de Gestão e Desenvolvimento Sustentável, onde as principais atividades são a realização de cursos, seminários, dias de campo, palestras e projetos para promover a sustentabilidade. E para estas atividades a questão da comunicação, articulação, organização, flexibilidade, pró-atividade são pré-requisitos para se alcançar os objetivos. Acredito que consegui ir aprimorando com o decorrer do tempo e também aprendi que todas elas são fundamentais para o exercício da liderança.

RC - Quando ou porque decidiu criar este projeto Mulheres do Campo?
Cynthia CominesiCC
- Em 2009, já trabalhando no CAT – Sorriso, verificamos que os eventos que estávamos realizando para os produtores rurais estavam tendo pouca participação deste público. Além disso, no mesmo período, o Sr. John Landers (fundador da Associação de Plantio Direto do Cerrado – APDC), comentou conosco porque não desenvolvíamos um trabalho com as mulheres dos produtores rurais para que, através da boa imagem que a mulher tem (mãe, protetora, amiga), pudéssemos promover a imagem da “categoria” produtor rural. Outro fato que fortaleceu nossa ideia foi que em abril de 2009 a senadora Katia Abreu esteve em Sorriso – MT, e nós do CAT, eu e a Lenira (secretária executiva do CAT), participamos do evento e a partir deste dia, vendo a postura da senadora em defesa dos produtores rurais e sua história de vida, não tivemos mais dúvidas. Nosso próximo projeto seria com as mulheres dos produtores rurais.

RC - Como foi este pontapé inicial?
CC -
No dia 30 de agosto de 2009 realizamos o primeiro diagnóstico junto a um grupo de mulheres, pois queríamos fazer um projeto mas não sabíamos sobre o que ele devia ser. Antes da reunião imaginávamos que se nós conseguíssemos reunir cinco produtoras rurais para trocar ideias já seria muito bom. Entretanto, neste dia tivemos 30 mulheres, o que nos surpreendeu muito e comprovou o que já imaginávamos, a mulher quer participar sim, quer se engajar, quer ser ouvida, só faltava o convite. Então, no diagnóstico perguntamos se as mulheres sentiam preconceito dentro do agronegócio, se elas se sentiam desvalorizadas, se elas eram ouvidas ou não dentro de seus lares, se participavam das tomadas de decisão, etc.

Elas apresentaram os problemas e mostraram o que poderia ser feito para resolvê-los. Segundo elas, a questão da capacitação, valorização e da educação era o ponto fundamental para fazer com que as mulheres se sentissem seguras para estarem “mostrando seus rostos” dentro do agronegócio, porque muitas delas já administravam suas propriedades, exerciam todas as funções de uma propriedade rural mas ainda não tinham voz ativa na hora de discutir, debater e dar opiniões sobre este setor.

Você tem sugestões para esta série? Escreva no mural da rede temática Mulheres no Campo, na rede social +Rural.

* O que é +Rural?

RC - Como você encara o fato de ainda, em pleno século XXI, ser nítido o descompasso entre homens e mulheres quando o assunto é a liderança e poder de decisão, principalmente no setor do agronegócio?
CC
- Somos resultado de uma cultura machista. Isto é um fato histórico. A base do desenvolvimento da sociedade brasileira é patriarcal. Eu não sou nenhuma especialista em história, mas o fato é que segundo a tradição da época em que os portugueses se instalaram no Brasil, a família não se compunha apenas de marido, mulher e filhos, era uma imensa legião de agregados submetidos à autoridade indiscutível que emanava da temida e venerada figura do patriarca. Temida, porque possuía o direito de controlar a vida e as propriedades de sua mulher e filhos; venerada, porque o patriarca encarnava, no coração e na mente de seus comandados, todas as virtudes e qualidades possíveis a um ser humano. E é claro, esta tradicional divisão sexual do trabalho, é muito mais forte dentro do setor agrícola até nossos dias, pois a sociedade brasileira além de ser baseada no patriarca também traz a agricultura e um caráter extremamente agrário.

E esta cultura foi e é transmitida até nossos dias, principalmente nos ambientes rurais, o menino desde cedo tem uma educação para voltada para o empreendedorismo e para a liderança. A mulher para responder pelos anseios do marido e dos filhos. Claro que já avançamos muito, principalmente depois da revolução sexual da década de 60, mas as mulheres ainda tem muito, mas muito que lutar e andar para ficar de igual para igual com os homens. Para se ter uma ideia, segundo a ONU, cerca de 1,2 bilhão de pessoas em todo o planeta vivem abaixo da linha de extrema pobreza, com o equivalente a menos de 1 dólar por dia (ajustado em cada país pela paridade do poder de compra). Desse total, 70% são mulheres, fenômeno identificado como a “feminização da pobreza”.  Ou seja, são fatos que ninguém pode contestar ou ter alguma dúvida sobre a importância da luta das mulheres pela igualdade nas questões de gênero.

RC- E como vem sendo a adesão entre as mulheres?
CC
- Tem sido extremamente positiva. Desde 2009 até a realização do II Fórum “Construindo um FUTURO MELHOR”, que aconteceu no dia 22 de novembro, mais de mil mulheres já passaram ou participaram de algum tipo de ação realizada pelo projeto, que além disso, devido o grande crescimento hoje já não consideramos mais como um “projeto” e sim como PROGRAMA “MULHERES DO CAMPO”.

Só para esclarecer, o Projeto Mulheres do Campo nasceu com a realização de vários cursos e palestras envolvendo os temas apresentados no diagnóstico participativo realizado em agosto de 2009 pelo grupo das 30 mulheres. Os temas trabalhados são: empreendedorismo, liderança, oratória, cooperativismo/associativismo, desenvolvimento sustentável, gestão de propriedades rurais, comercialização de produtos agrícolas.
Assim, com o movimento das mulheres, o sindicato rural de Sorriso apoiou a iniciativa e hoje temos uma mulher participante do projeto que foi eleita como Delegada da Aprosoja, temos mulheres fazendo parte da diretoria do Sindicato Rural de Sorriso e também temos uma extensão do programa no município de Nova Ubiratã, onde um grupo de mulheres realiza ações voltadas para a sustentabilidade naquele local.

RC - Em dezembro de 2010 foi produzida pelas integrantes do projeto “Mulheres no Campo” a “Carta da Terra das Mulheres do Médio Norte de Mato Grosso – um pacto pela sustentabilidade”, o que está escrito e qual a finalidade dela?
CC
- A carta da terra das mulheres foi elaborada num momento em que percebemos que o projeto estava crescendo muito e muitas ideias estavam surgindo sobre as ações que as mulheres poderiam fazer. Assim, numa tentativa de fazer com que o crescimento do projeto fosse sólido e ao mesmo tempo que não perdêssemos o foco principal, que era a valorização da mulher aliada a promoção do desenvolvimento sustentável, eu que já conhecia a  CARTA DA TERRA e seus princípios, busquei este modelo para desenvolver a  A CARTA da TERRA das mulheres do médio norte.

RC – E de que forma foi feita?
CC -
Durante a realização do I Fórum Construindo um Futuro Melhor, que contou com a participação de 150 mulheres de todo o médio norte do MT, de posse dos 16 princípios da CARTA da TERRA, as mulheres foram divididas em grupos para trabalharem os princípios da CARTA trazendo-os para a realidade local, ou seja, elas tinham que colocar ideias de ações que elas poderiam fazer no seu dia a dia, em suas casas, comunidades, bairros que ajudassem os princípios da carta da terra se tornarem realidade. A partir daí, nasceu a Carta da Terra das Mulheres do Médio-Norte do MT, contendo 29 temas que nortearam as próximas ações do Programa Mulheres do Campo. Por exemplo, dentro da carta muitas mulheres apontaram a coleta seletiva do lixo como sendo uma ação de fácil implantação e que elas poderiam realizar dentro dos seus lares para promover o desenvolvimento sustentável. Assim, nasceu o Projeto “Conscientizar é Preciso”, que tem como objetivo implantar a coleta seletiva de lixo nas propriedades rurais de Sorriso e trabalhar com a questão da gestão de resíduos sólidos no município. Atualmente temos 15 propriedades pilotos e cinco escolas que participam do projeto e temos a intenção de ampliar estes números em 2012.

No segundo fórum o tema que foi mais votado, como uma próxima ação do Programa das mulheres, é o apoio a projetos que venham promover o desenvolvimento econômico e social do município, além é claro, de dar sequencia nos trabalhos voltados para a valorização da mulher, do empoderamento da mulher e de agir contra qualquer tipo de violência realizada contra a mulher.

RC – Há pouco tempo você se mudou de Sorriso e foi para Brasília, o que está desenvolvendo?
CC
– Fui convidada a trabalhar na WWF – Brasil, uma ONG internacional que apóia a conservação da natureza e do planeta terra com um todo. Estou trabalhando com o desenvolvimento sustentável da cadeia da soja dentro do Programa da Agricultura existente na WWF – Brasil. Assim, o desafio é maior já que este programa tem uma dimensão internacional, pois atende todo o nosso país e tem que se relacionar com os programas voltados para a soja nos outros escritórios internacionais da WWF.

Particularmente, vejo como mais uma oportunidade de crescimento pessoal, profissional, mas principalmente, aceitei porque sei que a partir deste novo ponto outras portas se abrirão em apoio ao Programa Mulheres do Campo e ao CAT lá em Sorriso – MT. E este é meu maior objetivo aqui que vai ao encontro da minha missão de vida, que é: Construir um Futuro melhor para mim, meus filhos, minha família, meus amigos, minha comunidade, meu bairro, meu país, meu planeta.

Veja mais fotos de Cynthia Cominesi:

Participantes do Projeto Mulheres no Campo durante o Forum Construindo Futuro Melhor Exposição da 3 ediçã da cartilha Amigos da Terra
     
 
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