Mudar região - quinta-feira, 24 de abril de 2014
Postado em: 21/09/2012 00:00:00
Fonte: Rebecca Arruda / Rural Centro
Editoria: Pecuária

História da Raça: Curraleiro Pé-Duro

História da Raça: Curraleiro Pé-Duro

De origem europeia, a raça Curraleiro Pé-Duro chegou ao Brasil no período colonial pelas mãos dos portugueses. Segundo dados da Associação Brasileira de Criadores de Bovinos Curraleiros Pé- Duro (ABCPD), localizada em Teresina, Piauí, a raça se popularizou primeiramente na região Nordeste do país, em Salvador e Pernambuco. Mais tarde, os criadores chegaram ao Piauí e Maranhão, em seguida a Minas Gerais e ao Brasil Central. As informações da ABCPD dão conta de que o Vale do São Francisco é o berço principal da raça Curraleiro Pé-Duro, local onde a criação é mais forte. Os animais que descenderam dos primeiros trazidos de Portugal adaptaram-se, aos poucos, às condições de baixa qualidade dos primeiros locais de criação, além da seca, do calor e do ataque de parasitas e insetos. Isso resultou em uma raça de tremenda rusticidade e fácil adaptação a condições severas.

Principais características:

A raça é geralmente apurada para manter a rusticidade. Seu comportamento é dócil, a carne é saborosa, o couro é macio e resistente e o animal produz leite com padrão qualidade (boa lactação e teor de gordura). A raça Curraleiro Pé-Duro permite também cruzamentos com raças zebuínas, tais como a guzerá, sindi, gir, nelore e a indubrasil, visando obter animais de maior peso quando adaptados a pastagens naturais, principalmente aos diversos tipos de caatinga e com bons índices reprodutivos.

O curraleiro permite ainda cruzamentos com raças leiteiras como a jérsei, holandesa, pardo suíço, guernsey, entre outras, para a obtenção de vacas resistentes ao calor e à uma alimentação de menor qualidade.

Para complementar as informações, a Rural Centro entrevistou o criador João Batista Luzardo Soares Filho, proprietário da Fazenda Pirá, em Cajueiro da Praia, Piauí e presidente da ABCPD. Confira!

Rural Centro: Quais são as características físicas e genéticas da raça?

ABCPD: O Curraleiro Pé-Duro (CPD) é um taurino (Bos taurus taurus) tropicalmente adaptado, de pequeno a médio porte, dócil e que pode ser selecionado tanto para leite quanto para carne. E ainda há muito por fazer nestes aspectos de seleção. As fêmeas adultas pesam entre 250 e 300 kg e os machos adultos, entre 360 e 420 kg, se criados em pastagens nativas. Em boas condições de alimentação e manejo, atingem, seguramente, valores mais altos. Há registros de touros com 600 e até 700 kg. Devido à sua grande distância genética com zebuínos e com taurinos exóticos, é a raça recomendada para cruzamentos nos trópicos quentes, dando aos produtos mestiços maior resistência à seca, ao calor e aos parasitas, melhorando, por sua vez, a digestibilidade de gramíneas grosseiras, o que propicia um ganho de peso em condições mais extremas. Além disso, apresenta boa carcaça, rendimento e carne macia.

Rural Centro: É uma raça leiteira ou serve para o corte?

ABCPD: É um animal de dupla aptidão, desde que selecionado para esse fim. Atualmente, tem sido selecionado mais para o corte. No entanto, a Embrapa Meio Norte, através de seus pesquisadores Geraldo Magela e Anísio Lima, pretende implementar a curto prazo um núcleo de gado leiteiro, mediante seleção de animais dessa linhagem, inclusive para atender as necessidades de famílias rurais que habitam no Semiárido nordestino e criam a raça.

Rural Centro: Qual é a produção média de leite e as características de carcaça e carne?

ABCPD: Depende principalmente da alimentação, mineralização e cuidados básicos de manejo. O leite apresenta bons teores de gordura e há indivíduos bons produtores de leite, sendo registradas matrizes com 5 e até 7 litros de leite. Visando à heterose (vigor híbrido), recomenda-se o cruzamento do macho CPD com Jérsei, para se produzir uma vaca pequena, adaptada, e com boa produção. Para corte, apresenta boa área de olho de lombo e bom rendimento de carcaça. A carne também é macia e em testes realizados na Embrapa Pecuária Sudeste, alguns animais apresentaram a força de cisalhamento inferior a 3,00, sendo considerada uma carne, nesse caso, extremamente macia e é, particularmente, muito saborosa. O rendimento de carcaça na desossa tem surpreendido positivamente em animais criados em condições de melhor pastejo.

Rural Centro: Como é o manejo adequado do ponto de vista alimentar, reprodutivo e sanitário para a raça?

ABCPD: Como é uma raça que foi moldada sob circunstâncias adversas no sertão Nordestino, apresenta a peculiaridade de responder rapidamente às
mudanças de melhorias ambientais, natural ou artificialmente, apresentando ganho de peso compensatório elevado. Como qualquer indivíduo, responde bem aos bons tratos. Produz um bezerro por ano e é uma raça longeva, podendo viver mais de 20 anos, ainda produzindo. Quanto ao aspecto sanitário, recomenda-se o uso de vacinações periódicas como aftosa e brucelose, e a duas vermifugações anuais, antes e depois do período seco. Há ainda vacina contra o botulismo e contra raiva, cada uma delas aplicada uma vez ao ano. A vacina contra aftosa é aplicada duas vezes ao ano, geralmente nos meses de junho e novembro, de acordo com calendário estipulado pelos órgãos de defesa agropecuária.

Rural Centro: Quais são as aplicações econômicas da raça?

ABCPD: A utilização em cruzamentos, tanto para produção de leite ou de carne, requer a manutenção de rebanhos puros com vistas à produção de tourinhos ou sêmen. Também é grande a procura de animais para novos criatórios da raça Curraleiro Pé-Duro. Com o iminente reconhecimento da raça pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA), a procura aumentou consideravelmente e alguns reprodutores em leilões no Nordeste já atingiram preços surpreendentemente maiores.

Rural Centro: De onde surgiu a ideia para o nome da raça?

ABCPD: No período colonial a denominação Curraleiro era dada aos homens que entravam pelos sertões implantando currais para facilitar a criação do gado. Desse modo, o nome passou para a própria raça bovina. Já o termo Pé-Duro refere-se à capacidade desses animais de andarem em locais duros e pedregosos e à resistência às longas jornadas, justamente pelas características dos seus cascos. Em grande parte do Nordeste, como na Paraíba e no Piauí, a raça é conhecida como Pé-Duro. Por sua vez, em outras regiões brasileiras, é mais conhecida como Curraleiro e ambas as denominações são usadas como sinônimos, a exemplo do que ocorre, por exemplo, no Maranhão, no Ceará, em Minas Gerais, em Goiás e no Tocantins. Vale o registro de que outras denominações também eram usadas, tais como: Crioulo, Laranjo, Sertanejo, Comum, entre outras. O certo é que, visando dar mais uniformidade à raça e contemplar, ao mesmo tempo, a duas denominações mais utilizadas, foi selado um acordo junto ao MAPA, em maio de 2011, para uso da denominação oficial “Curraleiro Pé-Duro”, que vem é usada atualmente.

Rural Centro: Quantos são os criatórios no país hoje? E quantos animais?

ABCPD: Hoje, estão associados à ABCPD 42 criadores. Porém, há inúmeros outros criadores nos diversos estados da Federação, alguns deles inclusive em processo de filiação. Pode-se estimar entre 2000 a 2500 animais pertencentes aos criadores associados e aproximadamente a mesma quantidade pertencente a criadores não associados, que serão incentivados a se filiarem, assim que deferida a concessão oficial para gestão da raça pela ABCPD.

Rural Centro: A raça corre algum tipo de risco hoje?

ABCPD: Graças ao plantel montado na Embrapa Meio Norte, em pleno semiárido do Piauí na fazenda Octavio Domingos, por iniciativa do pesquisador José Herculano de Carvalho, ao trabalho de muitos outros pesquisadores, ao Cenargen – setor de Recursos Genéticos e Biotecnologia da Embrapa - e à força de vontade tanto de proprietários de fazendas seculares como de pequenos criadores particulares, o risco de extinção hoje é bem menor, embora ainda exista, uma vez que não há estímulo oficial à criação da raça, muitas vezes pelo preconceito que a cerca, fruto apenas da desinformação. Pesquisas recentes apontam para nichos de mercado nos quais a criação destes animais tem se mostrado atrativa - além das já citadas acima - como a pecuária verde, orgânica e de origem certificada.

Rural Centro: Tem alguma dica para quem quer iniciar a criação?

 Você sabia que?                                  

De acordo com a Embrapa o grupo de aptidão agrícola identifica o tipo de utilização mais intensivo das terras, ou seja, sua melhor aptidão. São reconhecidos seis grupos, representados pelos algarismos de 1 a 6, em escala decrescente, segundo as possibilidades de utilização das terras. O grupo 5 de aptidão agrícola - citado na matéria - abrange terras  restritas para pastagem natural.

ABCPD: Depende dos objetivos do criador. Além da produção de carne macia, de qualidade e do potencial leiteiro ainda por ser trabalhado, deve-se ter em mente que a raça CPD é um notável recurso genético. Apresenta grande resistência ao calor e a ambientes desfavoráveis. Utilizada pura, ou em cruzamentos paternos, poderá ser de grande importância no aproveitamento sustentável das terras do grupo 5 de aptidão agrícola (veja na tabela à dir.) que, de acordo com a classificação do Ministério da Agricultura, não são recomendadas para lavouras anuais ou pastagens cultivadas, e sim para silvicultura e pastagens naturais. Para iniciar a criação, sugere-se atenção aos leilões da raça, que serão cada vez mais divulgados a partir do reconhecimento oficial pelo MAPA, além dos contatos com produtores para obtenção de tourinhos de origem controlada e provenientes de planteis onde se pratica o melhoramento. A propósito, uma das metas de médio prazo da Associação é a instalação de uma Fazenda de Melhoramento da Raça nas proximidades de Teresina, Piauí, onde está a sede da ABCPD.

Sustentabilidade

Além de todos os aspectos positivos apresentado por Luzardo, dados da Embrapa Meio Norte mostram que somente no Nordeste, mais de 47 milhões de hectares enquadram-se no grupo 5 de aptidão agrícola e quando a terra é utilizada de acordo com sua capacidade, contribui-se para a conservação deste recurso natural. Resumindo, considerando a facilidade de sobrevivência de tais animais em mata nativa, ou seja, sem a necessidade de formação de qualquer pasto, o CPD é considerado o único bovino que pode viver em Unidades de Conservação, contribuindo inclusive para sua preservação, como se compusesse, originalmente, a respectiva fauna. Ainda segundo a ABCPD, há precedente de deferimento para criação da raça no semiárido piauiense, por Decreto Presidencial do Ibama, podendo-se afirmar, sem hesitação, que Curraleiro Pé-Duro é uma raça ecologicamente correta.

  

 

Fonte fotos: ABCPD.

     
 
COMENTÁRIOS
4
romeu cavalcante alves
romeu cavalcante alves 
como eu consigo semen do curraleiro pe duro quem souber me ensina
terça-feira, 7 de janeiro de 2014  Responder
altamiro damasceno rosa
altamiro damasceno rosa 
A Embrapa cerrado tem estoque de semen de curraleiros armazenado. Só não sei se disponibilizam para criadores. Se não se importar com a distância, tendo em vista as dificuldades para transportar animais vivos. Posso lhe disponibilizar alguns exemplares. Não são registrados, mas são puros. Meu pequeno rebanho já somam 12 anos de existência. Tenho dificuldade com acasalamentos vez que existe consanguinidade. Está muito difícil encontra animais puros para reposição de reprodutores. Gostaria de permutar alguns exemplares. Desde que sejam puros.

Grande abraço.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014 
romeu cavalcante alves
romeu cavalcante alves 
gostaria de saber como e onde comprar semem do curraleiro pe duro
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013  Responder
Altamiro Damasceno Rosa
Altamiro Damasceno Rosa 
Caros Romeu Cavalcante e Zelo Neto. - Também sou amante da raça e luto pela preservação da mesma. Meu rebanho também é pequeno, cerca de umas 20 fêmeas. Por ter começado apenas com 03 matrizes e 01 macho de um só rebanho existe o problema de consanguinidade dos animais. Gostaria muito de de adquirir pelo menos um reprodutor oriundo de outro rebanha para refrescamento de sangue. Quem sabe um dia possamos negociar uma barganha de animais para resolver este problema que acho não ser só meu.

Abraço.
terça-feira, 8 de outubro de 2013  Responder
romeu cavalcante alves
romeu cavalcante alves 
tambem sou criador do gado curraleiro pe-duro gostaria de adquirir semen para uma melhoria do rebanho , ja conto com 20 femeas e gosto muitoda minha criação e pretendo aumenta-la porem estou tendo problema com reprodutores
quarta-feira, 4 de setembro de 2013  Responder
romeu cavalcante alves
romeu cavalcante alves 
esqueci de falar que moro em Taguatinga to
quarta-feira, 4 de setembro de 2013 
Zelo Neto
Zelo Neto 
Olá, Romeu, tudo bem? Obrigado pela participação! Estou checando nossas fontes para viabilizar a solução da sua demanda por aí! Possivelmente na semana que vem posto mais novidades sobre a disponibilidade de genética de gado Pé Duro Curraleiro. Abraço!
quinta-feira, 5 de setembro de 2013 
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