05 Aug 2016

O Brasil é o quarto maior produtor e exportador de suínos do mundo (ABIPECS, 2010). Esta posição foi alcançada através da substituição de um modelo de produção de subsistência ou de pequena escala por médias e grandes unidades de produção de suínos em confinamento (Kunz et al., 2009). Apesar de ainda muito concentrada na Região Sul do Brasil, durante a última década acelerou-se a migração desta atividade para as Regiões Centro-Oeste e Sudeste do país. (Figura 1). As características ambientais (clima, relevo e solo) e econômicas (tamanho e capacidade de investimento da propriedade, disponibilidade de área agrícola, etc.) distintas destas duas regiões trazem novos desafios para o correto manejo dos efluentes gerados na suinocultura.

 

Muitas tecnologias estão disponíveis atualmente para o manejo dos dejetos líquidos de suínos. No entanto, a seleção destas tecnologias deve considerar os aspectos técnicos e econômicos intrínsecos a cenário, assim como as características da propriedade: número de animais alojados e produção de efluente, disponibilidade de área para uso agronômico dos dejetos, além das eventuais oportunidades para produção de energia e fertilizantes orgânicos para uso in loco ou comercialização.

Uma propriedade suinícola típica da Região Sul do Brasil aloja aproximadamente 600 matrizes nas unidades de produção de leitões (UPL) ou 750 suínos em terminação (UT) e apresenta grande limitação de área agrícola para o aproveitamento dos dejetos como fertilizante. Por outro lado, as unidades de produção de suínos localizadas no Centro-Oeste e Sudeste do país alojam em média 4.400 matrizes (UPL) ou suínos em terminação (UT) e normalmente estão localizadas em regiões de extensa produção agropecuária com alta demanda por fertilizantes. Considerando estes cenários antagônicos, fica evidente que os sistemas de manejo ou tratamento dos dejetos gerados nestas propriedades devem ser projetados de maneira específica, a fim de satisfazer as necessidades ou oportunidades que emergem de acordo com a demanda regional por fertilizantes, energia e/ou preservação ambiental.

Os dejetos líquidos de suínos são compostos por fezes, urina, sobras de ração, pêlos, areia e água utilizada para limpeza das instalações ou desperdiçada pelos animais. De uma maneira generalista, podemos entender os dejetos como uma mistura de elementos químicos que se apresentam na forma orgânica ou mineral: carbono (C), nitrogênio (N), fósforo (P), potássio (K), cálcio (Ca), magnésio (Mg), sódio (Na), manganês (Mn), cobre (Cu), zinco (Zn), entre outros. Devido a sua maior concentração, o C, N, P e K são os elementos com maior potencial para poluir o solo, os recursos hídricos e a atmosfera e requerem, portanto, manejo, tratamento e destinação adequados.

O armazenamento dos dejetos líquidos de suínos em esterqueiras e o seu uso como fertilizante na agropecuária é a principal prática para manejo dos efluentes da suinocultura utilizada no Brasil e também no mundo, devido a sua simplicidade, baixo custo e redução dos custos de produção das lavouras pela substituição dos fertilizantes minerais (Kunz et al., 2005). A principal desvantagem desta prática, entretanto, é o alto custo de transporte – quando este é feito por caminhões ou tanques tratorizados – que torna economicamente inviável a aplicação dos dejetos em áreas localizadas a partir de alguns poucos quilômetros das esterqueiras devido a sua alta diluição (Girotto e Chiochetta, 2004; Seganfredo e Girotto, 2004). Desta maneira, a disponibilidade de área agrícola nas proximidades das unidades de produção de suínos é o fator que limita inclusive o número de animais que podem ser alojados na propriedade.

O C não é considerado um poluente quando aplicado ao solo, visto que este é rapidamente assimilado pela biomassa microbiana nesse meio, embora alguma preocupação com a emissão de gases de efeito estufa (metano (CH4)) seja pertinente. Já o N, P e K, apesar de serem nutrientes altamente demandados pelas culturas agrícolas, quando aplicados em excesso ao solo, podem causar poluição, especialmente através da lixiviação de nitrato (NO3-) e potássio e contaminação das águas subterrâneas, escoamento superficial e eutrofização de reservatórios de água superficiais, ou pelas emissões de amônia (NH3) e óxido nitroso (N2O) para a atmosfera. Desta maneira, o aproveitamento dos dejetos como fertilizantes deve estar baseado nas recomendações técnicas que determinam a dose de dejeto a ser aplicada ao solo em função da concentração de nutrientes do efluente e na demanda destes nutrientes pelo solo e cultura a ser adubada. Além disto, tecnologias mais eficientes, como a injeção dos dejetos no solo, já se encontram disponíveis visando aumentar a eficiência agronômica e reduzir o impacto ambiental do uso agrícola dos dejetos líquidos de suínos.

Quando a necessidade de área agrícola está ajustada à oferta de biofertilizante (dejeto), como é o caso da grande maioria das propriedades suinícolas do Centro-Norte do Brasil, a destinação dos dejetos como fertilizantes agrícolas é suficiente para garantir a sustentabilidade do sistema de produção. No entanto, quando a disponibilidade de área agrícola é limitada (caso típico de grande parte da Região Sul do Brasil), o suinocultor deve considerar tecnologias alternativas para o tratamento dos dejetos.

Fonte: Suinocultura Industrial