Toda vida, desde o período pré-colonial, sempre houve uma principal atividade inicial que fez com que as cidades e estados fossem se desenvolvendo e posteriormente abrindo portas para a indústria e o comércio, e como consequência desse progresso, se tornaram grandes metrópoles.

Tudo isso dependeu da agricultura e pecuária. A agropecuária sempre impulsionou, não só nesse período inicial, mas também nos demais períodos, incluindo aqueles de crise.

Desse modo, com o passar do tempo e com as experiências adquiridas, o homem sempre desenvolveu estudos e práticas que melhorassem a genética, o manejo, a nutrição e a sanidade do rebanho. Logo focamos na produtividade, na sustentabilidade e no bem estar animal e sem nenhum rastro de dúvida, quando aliamos tudo isso em uma propriedade o resultado é satisfatório e lucrativo.

Hoje, tenho o prazer e a honra de participar e deixar um legado em um lugar onde não se via ou ouvia falar de pecuária e de agricultura e de suas respectivas importâncias para a sociedade, participar do desenvolvimento inicial de um país que possui tudo que se precisa para implantação das atividades agropecuárias. Para descrever esse contexto, inicio pela principal raça que está presente em toda África Central, o N’dama, que é uma raça bovina (bos taurus) procedente dos arredores da província de Fouta-Djallon na Guiné, que logo se espalhou e hoje é a raça mais representativa em toda África Central e Ocidental. O diferencial desta raça é a tolerância e resistência as principais doenças que são presentes nesta região, muitas delas hemoparasitoses.

Estas várias doenças trazem enormes prejuízos econômicos, sanitários e ambientais, que podem resultar em morte do animal se não for diagnosticada e tratada previamente.

Dessa forma, estas características contribuíram amplamente para a disseminação dessa raça nas pastagens e savanas do vasto continente Africano.

Com o decorrer do tempo, foi visto que essa raça foi se adaptando bem às condições de seca e umidade. Hoje em dia, encontram-se rebanhos puros e a também utilizam o N’dama em cruzamentos. O principal motivo para iniciar cruzamentos com essa raça foi pelo motivo que os animais N’dama são curtos e pequenos, esse atributo resulta em pouco peso na hora do abate e evidentemente uma menor remuneração paga ao pecuarista. Portanto o objetivo foi conseguir em um cruzamento agregar a rusticidade e a tolerância do N’dama às doenças africanas e ao clima tropical e do outro lado, aumentar peso vivo e evidentemente aumentar a qualidade de carne e o peso de carcaça. O principal cruzamento até hoje feito que o resultado obteve um maior impacto positivo, foi iniciado em 1918 nas Ilhas Virgens do arquipélago do Caribe, quando utilizaram a genética do gado N’dama juntamente com a genética do gado Inglês Red Poll (também uma raça Taurina) e após 30 anos teve seu registro como Senepol.

Hoje, o Senepol é mundialmente conhecido pela sua rusticidade, docilidade, fertilidade, precocidade, habilidade materna, eficiência alimentar, qualidade de carne, rendimento e acabamento de carcaça. Em 2014, iniciamos o cruzamento entre o N’dama x Nelore, que são raças muito distantes, o que também garante uma alta heterose (melhor desempenho e produtividade biológica das proles do que a média dos pais) assim agregamos à rusticidade de ambas as partes, tornando a prole desse cruzamento muito resistente, obtendo a conformação, ganho de peso e qualidade da carne do nelore. Sem dúvida, o resultado desse cruzamento já vem superando expectativas.

Outro cruzamento que vem dando um bom resultado é utilizar o N’dama juntamente com o Zebu africano, conhecido também como Goudali, que são animais que também possuem uma boa resistência ás doenças e são adaptados ao clima equatorial. O Goudali é proveniente de cruzamento entre o Brahman X Adamaoua (raça bovina de camarões).

Sendo assim, é primordial que a informação sempre esteja aliada com as tecnologias para favorecer a maior produtividade, respeitando sempre o bem estar dos animais, o meio ambiente e como resultado uma produção sustentável e rentável.

 

Leandro Cazelli Alencar é técnico em Zootecnia e médico veterinário. Atua com pecuária de corte, pecuária leiteira e criação de avestruzes na República do Congo, África.