Como as doenças se comportam na cultura do trigo

ualquer doença pode causar danos significativos em uma lavoura de trigo, dependendo do manejo empregado, da cultivar de trigo utilizada e do clima de determinada região ou safra

Os avanços nas práticas agrícolas aliados a evolução do melhoramento genético de trigo permitem hoje que as lavouras consigam atingir produtividades superiores a 6.000 kg/ha. Dentre as práticas agrícolas, o sistema plantio direto proporcionou sustentabilidade da atividade agrícola alterando os conceitos de manejo e conservação do solo. Por sua vez, os programas de melhoramento genético, proporcionam cultivares cada vez mais produtivas e de maior estabilidade nas diferentes regiões produtoras de trigo do Brasil. Cada uma dessas regiões demanda um manejo integrado de doenças específico, uma vez que a intensidade das doenças varia dependendo das condições climáticas, das práticas culturais e da resistência genética da cultivar selecionada.

Na cultura do trigo, as doenças são causadas por diferentes microrganismos (agentes causais da doença), em sua maioria fungos, que ao infectarem a planta apresentam os sintomas da doença. Estes microrganismos apresentam diferentes ciclos de vida, interações com o hospedeiro (trigo) e requerimentos ambientais (principalmente água e temperatura) para causarem epidemias e por sua vez precisam ser analisados caso a caso para uma correta diagnose e manejo.

Para um correto manejo de doenças é necessário entendermos como os microrganismos sobrevivem, se disseminam e infectam a planta de trigo. Inicialmente, com relação a sobrevivência, deve-se tentar responder sempre que possível a estas três perguntas: onde, como e, por quanto tempo o microrganismo sobrevive, assim conseguimos direcionar a nossa tomada de decisão.

MANCHA AMARELA

Pegamos por exemplo o fungo que causa a mancha amarela da folha do trigo (Drechslera tritici-repentis). Esse fungo tem a capacidade de sobreviver nos restos culturais e nas sementes de trigo, sendo esses os principais locais de sobrevivência desse fungo (“onde”). Por ser um fungo necrotrófico possui a habilidade de extrair nutrientes do tecido morto (“como”), conseguindo se manter viável enquanto a palhada de trigo não se decompõe. No Sul do Brasil, o período é de aproximadamente 18 meses (“quanto tempo”). Juntamos essas informações ao fato desse fungo produzir esporos grandes (considerando que falamos de seres microscópicos) que não são dispersados pelo vento à longas distâncias (inferiores a 20m). Logo, a melhor forma de manejar esta doença é através do uso de sementes sadias (ou tratadas com fungicidas) e da rotação de culturas, ou seja, evitar semear trigo sobre trigo ano após ano.

OÍDIO E FERRUGEM

Já para as doenças conhecidas como oídio (Blumeria graminis f.sp. tritici) e ferrugem (Puccinia triticina), as medidas de controle citadas anteriormente não possuem nenhum efeito prático, pois os fungos que causam estas doenças são chamados de biotróficos, ou seja, só conseguem parasitar tecido vivo (“como”) sobrevivendo de uma estação de cultivo para outra em plantas voluntárias de trigo (“onde”) no período de entre safra (“quanto tempo”). Além disto, estes fungos produzem esporos pequenos que são dispersados pelos ventos a longas distâncias (chegando a quilômetros).   

Uma vez identificado onde o microrganismo sobrevive e como ele se dissemina, precisamos entender quais são as condições ambientais que favorecem sua infecção na planta. Enquanto o fungo da mancha amarela precisa de longas horas (mais de 20 h) de molhamento foliar a 20°C para conseguir infectar a folha do trigo, o fungo da ferrugem precisa de apenas 10 h à mesma temperatura. Já o fungo que causa o oídio não precisa de molhamento foliar (umidade relativa do ar superior a 75%) para infectar a folha do trigo. Uma vez dentro do tecido vegetal, cada microrganismo utiliza táticas diferentes para vencer as barreiras do hospedeiro e causar a doença. Enquanto os necrotróficos produzem toxinas que necrosam e degradam o tecido vegetal, os biotróficos produzem estruturas especializadas para extrair nutrientes retardando a morte do tecido vegetal.

RESISTÊNCIA GENÉTICA

É nesse momento que a resistência genética da cultivar expressa sua importância, inibindo a infecção ou retardando os processos de colonização e reprodução e, consequentemente, reduzindo a evolução da doença na lavoura e seus danos. Cultivares com maior nível de resistência a uma determinada doença flexibilizam o manejo da doença, permitindo que o produtor tenha um tempo maior para a aplicação de fungicidas, especialmente em condições climáticas adversas onde não se consegue entrar com o maquinário na lavoura.

SAFRA 2017

Analisando estes diferentes parâmetros pode-se entender porque certas doenças ocorreram ou terão maior chance de ocorrer (previsão do tempo) em determinadas regiões. Por exemplo, o excesso de chuvas nos meses de maio e junho (mais de 200 mm) proporcionou no Norte do Paraná mais de 18 horas de molhamento foliar, que aliado a temperaturas próximas a 20°C ao longo do dia, tornam o ambiente favorável ao desenvolvimento do fungo causador da mancha amarela, com maior severidade em lavouras conduzidas sob monocultura de trigo da região.

Já a estiagem das últimas semanas, de tempo seco e temperaturas amenas, tem favorecido a ocorrência do oídio no trigo, neste caso independente do sistema de cultivo, uma vez que o esporo do fungo vem com o vento, como explicado anteriormente. Essas mesmas condições de clima seco e ameno no Rio Grande do Sul também favorecem a ocorrência de oídio nas lavouras já estabelecidas do estado, demandando de monitoramento por parte da assistência técnica para um posicionamento adequado da aplicação de fungicidas.

BRUSONE

Já nas regiões acima do Norte do Paraná, uma importante doença é a Brusone (Pyricularia oryzae). Este fungo ocorreu nas lavouras de sequeiro da região do Cerrado em 2017 devido a chuvas e temperaturas elevadas que favorecem sua esporulação e infecção, principalmente em cultivares que não apresentam resistência genética a essa doença. As lavouras semeadas antes de 15 de abril na região Norte do Paraná também espigaram em condições favoráveis à Brusone, no entanto para as lavouras dessa região que estão espigando neste momento, as condições climáticas para ocorrer a infecção não são favoráveis devido a falta de chuvas e diminuição das temperaturas.

GIBERELA

Para o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e região fria do Paraná, que têm grande parte das lavouras em florescimento nos meses de agosto a outubro, as previsões climáticas apontam para uma temperatura acima da média e um maior volume de chuva durante esse período, o que indica condições ideais para a possibilidade da ocorrência da Giberela (Fusarium graminearum) nas lavouras. Para que ocorra essa infecção o fungo precisa de molhamento na flor. A faixa de temperatura que o fungo tem capacidade de infectar é bem ampla, dos 15°C aos 30°C. Por se tratar da doença que mais afeta a qualidade dos grãos devido a ocorrência da micotoxina (DON), recomenda-se atenção a essa doença. As medidas de manejo são: uso de cultivar resistente e a aplicação de fungicida nos órgãos aéreos na fase de suscetibilidade. A primeira aplicação de fungicida deve ser feita com aproximadamente 50% do florescimento e a segunda aplicação em torno de sete a dez dias depois da primeira, se as condições climáticas persistirem.

COMO EVITAR

Quanto mais favorável o clima for ao microrganismo, maior serão as condições dele se multiplicar e infectar a planta, consequentemente mais severa será a doença no campo e de causar danos. Algumas estratégias de controle são definidas antes do plantio, como sistema de cultivo (rotação ou monocultura de trigo), sanidade de sementes e resistência genética da cultivar. Outras são definidas baseadas nas condições climáticas e monitoramento de doenças no campo, como a aplicação de fungicidas. Portanto, qualquer doença pode causar danos significativos em uma lavoura de trigo, dependendo do manejo empregado, da cultivar de trigo utilizada e do clima de determinada região ou safra.

* Dr. Paulo Kuhnem, fitopatologista da Biotrigo Genética