Carne Carbono Neutro (CCN): mercadoria fácil e valiosa

Carnes bovinas frescas, congeladas ou transformadas, destinadas ao mercado interno ou externo, poderão ganhar um reforço de peso em um futuro bem próximo, após o lançamento da “Carne Carbono Neutro” (CCN).

Já devidamente registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), a nova marca foi lançada na primeira semana de junho, durante o 2º Simpósio Internacional sobre Gases de Efeito Estufa na Agropecuária (SIGEE), promovido pela Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande (MS).

O pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Roberto Giolo, destaca que “o selo poderá melhorar a visibilidade da carne brasileira em mercados mais exigentes, como o europeu, com potencial de ampliar as exportações. Já no mercado interno, concorre para ampliar o setor de carnes diferenciadas, com apelo de qualidade associada aos benefícios ambientais, com mitigação dos Gases de Efeito Estufa (GEEs)”.

 Para a produção mais sustentável de carne bovina em território nacional, Giolo acredita que o selo CCN “poderá ser uma boa estratégia para demonstrar todo o esforço do Brasil, em suas ações voluntárias frente às mudanças climáticas; para produção e exportação de um produto diferenciado; e para valorizar a pecuária e a gestão ambiental do país”.

Ele reforça que o público-alvo desta “nova carne” será todo e qualquer mercado mais exigente, “não só pela qualidade do produto, mas pelo menor impacto ambiental do sistema produtivo, principalmente com relação às emissões de GEEs, como a Europa e Japão”.

Giolo acredita que o novo selo também será um facilitador para as metas nacionais previstas no Plano de Agricultura de Baixo Carbono, “na medida em que o selo está associado à carne produzida em sistemas pecuários que incluem o componente arbóreo plantado, como sistemas silvipastoris e agrossilvipastoris”. “Estes sistemas, por sua vez, se enquadram como modelos de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), que consistem em uma das ações propostas pelo Plano ABC”.

Na prática

A marca-conceito Carne Carbono Neutro (CCN), desenvolvida pela Embrapa, foi apresentada em um dia de campo em Campo Grande, dentro da programação da  Intercorte, no último dia 22, na Fazenda Boa Aguada (Grupo Mutum). Durante o evento, os participantes souberam que o conceito CCN visa atestar a carne bovina produzida com alto grau de bem-estar animal, na presença do componente arbóreo, em sistemas de integração do tipo silvipastoril (pecuária-floresta, IPF) ou agrossilvipastoril (lavoura-pecuária-floresta, ILPF) e que, nessas condições, as árvores neutralizam o metano entérico exalado pelos animais, um dos principais gases responsáveis pelo efeito estufa que provoca o aquecimento global.

O pesquisador da Embrapa Florestas, Vanderley Porfírio, explica como a árvore faz a diferença dentro do sistema. “Para crescer, ela tira gás carbônico da atmosfera, então na madeira, dirigida a produtos de maior valor agregado como móveis, uso na construção civil, piso e assoalho, fica imobilizada aquela quantidade de carbono num período de tempo maior, que vai durar de dez a 15 anos, e assim podemos afetar a forma como o carbono entra e sai da atmosfera”.

O pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Roberto Giolo, conta que os estudos foram iniciados na fazenda há cerca de um ano e, depois do abate dos animais selecionados para a pesquisa, a análise da qualidade de carcaça e de carne mostrou que 100% deles atingiram os níveis desejáveis. “Isso indica que é facilmente possível obter animais com qualidade dentro do conceito da Carne Carbono Neutro”.

Segundo o também pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Rodrigo Gomes, os animais foram abatidos com 514 quilos de média de peso vivo, em torno de 18,3 arrobas de carcaça, com rendimento de carcaça em torno de 53%. “Em relação ao acabamento, cerca de 95% dos animais tinham acabamento de gordura 3, que é o desejável. Em geral, as carcaças estavam de acordo com o que a indústria quer, com bom acabamento e animal jovem, em média de 32 meses, considerado novilho precoce”.

Conclusão

- Consumidores no futuro estarão dispostos a pagar mais pela carne de carbono neutro;

- Uma alimentação sustentável inclui a carne à base de pasto e evita alimentos processados e açúcar;

- Se você tem mais carbono sequestrado em seu solo do que emitido, então sua propriedade é neutra em carbono;

- As fazendas serão neutras em carbono dentro do sistema sem fazer muito esforço. E se não forem, há muitas maneiras de aumentar o sequestro de carbono;

- Há uma forte percepção de que, se as vacas produzem metano elas são as vilãs e estão matando o planeta, mas o sistema ILPF prova que podemos comer carne e ser neutro em carbono;

- A pecuária é responsável por 18% dos gases de efeito estufa que causam o aquecimento global. Em quase todos os estudos científicos sobre o tema Alterações Climáticas, os bovinos são mais culpados pelas emissões de gases de efeito estufa e do aquecimento global do que qualquer outro setor;

- Como a demanda por carne aumenta em nossa economia global, não podemos acreditar que os seres humanos se tornarão veganos do dia para noite. As pessoas gostam da carne bovina. Mudanças precisas acontecer, e mais que isso, as mudanças precisam ter um efeito positivo sobre a indústria que alimenta o nosso mundo. Com a criação de demanda e sensibilização dos consumidores para a Carne de Carbono Neutro, podemos, como uma indústria, atender à evolução das necessidades dos nossos consumidores.

 

Autora: Mirella Cais
Cofundadora do 
Blog da Carne
Mestre em Gestão Internacional (ESPM)
Engenheira Agrônoma (UNESP)