Mudar região - segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Postado em: 28/09/2016 00:00:00
Fonte: Mirella Cais | Rural Centro

Bem-estar animal: valores e benefícios

Bem-estar animal: valores e benefícios

O termo “bem-estar animal”, hoje, possui diversas definições que são utilizadas para todos os tipos de animais - desde os de companhia, de produção, de experimentação, aos silvestres e de cativeiro. Baseado nos estudos sobre o modo como os animais vivem e são criados, o conceito ganhou força não só pelo que se refere às questões ligadas ao sistema produtivo, à qualidade final do produto e às relações técnico-comerciais, mas no que tange as questões ligadas ao respeito aos animais, morais, éticas e religiosas.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde Animal, bem-estar animal é a maneira como o animal lida com o seu entorno, e dessa forma inclui-se comportamento e sentimentos. Quando se trata de animais de produção, atribui-se a boas condições de bem-estar quando são atendidas o que chamam de “cinco liberdades”, nas quais procura-se adotar e incorporar padrões básicos e mínimos de qualidade de vida para os animais como os citados abaixo:

- Livres de fome, sede e má nutrição;

- Livres de dor, lesão e doença;

- Livres de medo e angústia;

- Livres de desconforto;

- Livres para manifestar o padrão comportamental da espécie.

Em relação aos sistemas agroalimentares, a necessidade de adoção de um novo modelo dos sistemas produtivos vigentes, com foco nos impactos gerados ao ambiente, fez com que o conceito “bem-estar” surgisse com muita força em todas as etapas da cadeia. A adoção das “cinco liberdades” permitiu avanços qualitativos em relação:

- Aos sistemas de criação, com adequações do espaço mínimo disponível por animal, fornecimento de dietas balanceadas e disponibilidade de sombra em sistemas extensivos;

- Ao transporte dos animais com embarque sem estresse e em veículos apropriados, determinação de tempo e distância máximos, sem interrupção, até o abatedouro;

- Ao abate, sem sofrimento, com atordoamento eficaz.

Além dos valores e benefícios alcançados com as práticas de bem-estar animal, a importância do método para a cadeia produtiva de carnes é a possibilidade de exploração e atendimento de mercados consumidores mais exigentes, interessados na chamada “grass-fedbeef” (carne produzida a pasto), que é a condição de tornar tangível o intangível, ou seja, alcançar qualidade final desejada do produto através do bem-estar. Este tipo de produto com qualidades particulares é proveniente, na maioria das vezes, de regiões tropicais. Sua produção, portanto, deve necessariamente lançar mão de práticas de manejo que visem a proteção contra a radiação solar intensa, por exemplo. Isto porque conforme o nível de interação radiação solar x nível de adaptação ao calor do animal, observa-se maior ou menor estresse nos animais, com diminuição de bem-estar e desempenho.

Animais submetidos ao calor intenso bebem mais água, aumentam a taxa de sudação, frequência respiratória, batimentos cardíacos, reduzem o consumo de forragem e tornam-se irrequietos ou ficam deitados por longos períodos.

Atualmente observamos uma forte tendência dos sistemas de produção multifuncionais ou ILPF – integração lavoura-pecuária-floresta, que além de permitir a recuperação de áreas e pastagens degradadas, de baixa produtividade, oferecem benefícios diretos e indiretos aos animais, como sombra e melhora das condições ambientais microclimáticas. Estes fatores que refletem diretamente no bem-estar dos animais.

Pesquisas realizadas pela Embrapa mostram que de acordo com o tipo de árvore (nativa e exótica) e o arranjo utilizado (linha simples, dupla ou tripla) é possível alcançar uma redução de 2°C a 8°C na temperatura ambiente dos sistemas ILPF, quando comparados às pastagens sem árvores. Dessa forma, o conforto térmico oferecido reflete diretamente nos índices produtivos, como ganho de peso, produção de leite, e também nos reprodutivos: menor incidência de abortos, aumento nos índices de fertilidade, maior peso ao nascer. Quando somadas as melhorias proporcionadas pelos sistemas ILPF à ambiência e ao bem-estar animal temos reunidas melhores práticas que revelam a otimização e diferencial da bovinocultura brasileira (rebanhos e pasto), colaboradoras na consolidação da pecuária como sustentável no cenário mundial.

Não podemos negar que o conceito “bem-estar” apresenta níveis de adoção e valores que variam em função das diferentes óticas éticas, temporais, culturais, socioeconômicas. Mas é importante ressaltar que é um caminho sem volta e, a longo prazo traz melhorias diversas para o sistema de produção.

 

Autora: Mirella Cais
Cofundadora do 
Blog da Carne
Mestre em Gestão Internacional (ESPM)
Engenheira Agrônoma (UNESP)

     
 
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